quinta-feira, 2 de maio de 2019

Madrugada Poema 20


"Posso escrever os versos mais tristes esta noite".
Posso falar do frio, da insônia e seu silêncio, do estalo da lenha qeimando na lareira.
Posso falar que o frio não se vai, da névoa, do grís...
Posso falar das decepções que me afligiram e das que me afligem.
Nesta madrugada, lua cheia, posso falar da falta de vento, da falta do relento e aconchego. Falar da falta da brisa do mar, do mar, amor, amar.
Posso falar das feridas na minha alma, das cicatrizes no meu coração, em meus braços, pulsos, pernas... Que as vezes doem só para me lembrar de minhas fraquezas.
Posso falar da ausência do sentimento, das dores, do céu, das flores que já não são apreciadas como antes.
Posso falar somente do silêncio, da falta de ruídos, sonidos, risadas, fluidos e vozes.
Posso falar da solidão, que é distinto de estar sozinho.
A solidão que fere, que te faz não encontrar lugar, prazer, um lar.
Posso escrever sobre todas as coisas que perfuram lentamente meu interior...Assim como as ondas do mar fazem com as rochas...
Posso escrever, posso falar, mas quem se interessará?
Posso questionar o fado dado, a mão não estendida, o amigo desaparecido, até mesmo a própria família.
Posso escrever as coisas mais tristes esta noite, que não é mais noite, nem madrugada, começa a amanhecer....
Posso falar sobre as minhas debilidades, sobre as inúmeras vezes em que me  debulho em lágrimas por não ser pertencente, por não ser tão coerente e por ora ausente.
Posso escrever do fundo do meu ser pálido, assim como da minha pele, da ausência de cor nestes dias.
Posso falar do meu olhar desbotado, sem brilho, ja cansados e profundos em minha face.
Posso falar das inúmeras imperfeições que tenho, do choro constante, da dor latente, da dor causada e da dor persistente.
Posso falar da falta de vontade de se olhar, se enxergar, se ver e se querer.
Posso escrever as coisas mais tristes esta madruga, que mesmo assim jamais serão tão tristes quanto o vazio na minha alma.


Inspiração: Poema 20 - Pablo Neruda-