quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Diário


Querido diário,

As coisas não estão tão melhores desde a última vez que no encontramos.
Algumas coisas que prometi, foram quebradas, inclusive encontrar com você novamente.
Cá estou pois descobri que você é o único que sabe guardar segredos.
 E aprendi que não devemos confiar tanto nas pessoas.
Os adultos são cruéis, amigo diário, eles mentem...e muito!
O que minha mãe me ensinou perde-se e hoje já não sei distinguir o que é certo e errado... O que faria tranquilamente com doze anos, quando éramos inseparáveis...
Os adultos são confusos, e vejo que, quanto mais o tempo passa, mais ficam confusos, menos certezas tem das coisas, e morrem de medo da vida. Sim, eles morrem de medo da vida, quando deveriam era temer a morte que cada ano se aproxima mais.
Amigo, todos aqueles sonhos que tinha te falado, não passaram de sonhos.
Não virei uma grande atriz, nem estilista, nem arqueóloga... Não adotei aquelas crianças, não casei de vestido branco em Roma e nem tampouco conheci Veneza.
Mas a vida não está tão ruim, a vida está boa!  Comparando com alguns que eu conheço não tenho muito o que reclamar...
Os adultos tem o péssimo costume de sempre se comparar com quem está mais desiludido. Competição patética que aprendemos a fazer para não arriscar, não tentar, não curtir, enfim, não viver.
Amigo, sei que posso confiar em você, e preciso admitir que fiz coisas que não me orgulho nem um pouco. E isso não tem a ver com comer todo o presunto e colocar a culpa no meu irmão.
Eu menti também. Algumas vezes foi necessário, outras nem tanto...
Eu sou confusa, faço, falo coisas que não queria, me arrependo, mas logo repito tudo denovo.
Também já fui cruel algumas vezes... Já destruí alguns pingos de esperança alheia por simples prazer.
Eu tenho medo. Tenho medo do amanhã, do hoje, do ontem. Tenho medo de atravessar a rua, de cada passo,  de um olhar, de cada caso, de cada perda, saco!
Como sou fraca, amigo!
Eu comparo as pessoas, a minha vida. Fico fazendo comparações ridículas que nada interferem no movimento de translação, e que nada me traz de bom.

Mas permaneço com um traço bom. Eu ainda sonho, amigo, sonho muito!
Sonho com tudo, com todos, com lugares, com rostos.
Sonho comigo, com ele, com aquilo e com isso.
Apenas sonho... É isso não está certo!
Querido diário, acho que não tenho mais idade para ter você!
Vou atrás dos meus sonhos. Estou muito certa do que eu quero.
Não vou ter medo de arriscar, nem viver de mentira.
Vou conhecer o mundo, começando pelo Tibet!
Vou estudar História!
Fazer aula de canto.
E ainda vou ter 3 filhos!
Adeus diário, eu prometo que é pra sempre.

Vou viver...  E não volto!

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Compulsão

Há quem tenha compulsão por comer.
Não pensa duas vezes ao se deliciar com uma refeição, seja ela qual for.
Há quem tenha compulsão por organizar.
Livros espalhados, coisas fora do lugar dão-lhe urticárias.
Há quem tenha compulsão por compras.
Não há um dia onde não faça existir a necessidade de consumir algo.
Toda compulsão tem como seu fator principal a ansiedade.
Ela que nos faz perder os limites algumas vezes.
Que nos rouba o sono em outras, e faz um medo inexplicável surgir em certas ocasiões.


Existe também a compulsão por sorrir.
De todas as compulsões, esta particularmente me encanta. Acho admirável quem não se permite passar um intervalo de horas sem esboçar um, singelo que seja,  sorriso.

Mas também existe a compulsão por apaixonar- se.
Esta, sem dúvida, merece eterna admiração.
Quem apaixona-se por um olhar, apaixona-se por um gesto, um filme, um cheiro, um jeito, um beijo... Apaixona-se  pelo fato de estar apaixonado.

Não nego que tenha uma certa afinidade nesta compulsão.
Lembro de uma vez, a um tempo atrás “ Uma adolescente dentro de um ônibus a caminho do trabalho, avista um rapaz que no mesmo instante faz seu estômago contorcer, e ali mesmo, numa fração de segundos, apaixonou-se.
Existiam seis poltronas disponíveis naquele veículo, mas ele “aleatoriamente”(será?) sentou-se ao lado dela. Ambos de óculos escuros, impossibilitando de saber se os olhares se encontraram alguma vez.
Foram vinte e seis  minutos, de silêncio, de nervosismo, de prazer e de uma euforia tão imensa porém contida... Exatos vinte e seis minutos de uma paixão tão intensa que por pouco podiam tocá-la.
Ao longo do trajeto ela pensava em inúmeras formas de fazê-lo  perceber sua presença e interesse, era lindo... parecia um anjo, porém provocava sensações que apenas os demônios conhecem...
Chegou a hora do rapaz saltar, e a sensação de desespero e arrependimento tomava conta da garota.
Ele apressadamente levantou-se e desceu, no momento em que o semáforo estava vermelho.
Ela sentia que não podia acabar assim, aquela paixão não podia ser tão platônica, olhando pela janela tirou os óculos escuros e apenas sorriu.. O rapaz surpreso devolveu o sorriso com os braços abertos, como quem faz um convite a dançar juntos e consumar o sentimento reprimido daqueles vinte e seis minutos de silêncio.
O semáforo ficou verde, e o ônibus partiu.
Ela seguiu...longos dias sonhando com o dia que o encontraria novamente e quem sabe consumar aquela paixão, o que jamais aconteceu.”
Não vejo outro final para essa história, ela tinha que seguir com essa dúvida, assim como ele.
Isso que tornou essa paixão tão inesquecível, nunca ter sido consumada, bebida, tocada.
E não foi a primeira nem a última vez que a paixão aconteceu.
O interessante e ao mesmo tempo triste, é que na mesma velocidade e intensidade  que a paixão surge, ela se dissipa. Como por mágica, ela desaparece dando espaço para a próxima, e assim sucessivamente...


Existe também a compulsão por fazer apaixonar.
Esta é uma arte, digna de aplausos e assovios, onde muitos tentam porém poucos conseguem, e geralmente quem possui esta compulsão não sabe disso.
Faz apaixonar sem truques, sem pretensões, porém com uma necessidade insaciável de seduzir o outro, mas como tudo é ambíguo, após fazer alguém apaixonar-se, alcançando o objetivo,  este compulsivo se entristece, mas logo parte para outro desafio.
Este compulsivo me atrai e ao mesmo tempo me intriga.
Penso que essa necessidade compulsória  de testar suas aptidões para a sedução esconde na verdade um coração frágil que, por um momento,  suplica por aceitação.
Esta é a forma de manter o ego inflado, onde as conquistas servem de combustível para manter o ego nas nuvens.
É inacreditável quem não se perceba compulsivo por algo.
É incrível quem consegue ter muitas paixões.
É enlouquecedor quem possui um armário cheio de sapatos, com alguns nunca usados.
É admirável quem possui uma estante cheia de livros organizados, um por um...
É tentador o prazer perceptível de alguém se deliciando com uma barra de chocolate.
É sensacional quem faz alguém se apaixonar, mas o mais espetacular é o que consegue manter alguém apaixonado.

Mas...Quem nunca apaixonou-se ou fez-se apaixonar....?

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Poema de saudade

Sinto falta daquele abraço infinitamente apertado.
Sinto falta daquele beijo interminavelmente demorado.
Sinto falta das conversas drasticamente vagas ao longo da noite.
E das crises severas de choro na madrugada.

Sinto falta da agonia de querer tocar quem está longe.
Sinto falta da sensação insólita de  frio no interior do corpo.
Sinto falta das pernas bambas, e das mãos inquietas.
Em busca de algo para alicerçar...
Sinto falta da ansiedade da espera.
Sinto falta da ânsia por impressionar.



Sinto falta de não ter o que falar.
Sinto falta de querer estar.
Sinto falta de não poder ser,
Ver,
Crer,
Sinto falta de querer esquecer.
Sinto falta de algo que nunca tive.
E que certamente nunca vou ter.
Sinto falta até mesmo de sofrer.
Sinto falta de quase enlouquecer.
E entristecer.

Saudade.