Hoje eu chorei
Chorei de
lavar a alma
Com o
coração apertado que parece não ter fim.
E continuo
a chorar.
Hoje
acordei e fui olhar para o dia
E pela
sacada vi um céu azul, limpo, diferente dos dias que passaram, e chorei.
Olhei para
a rua onde fui criada, e cresci, a casa já não existe mais, existe outra em seu
lugar, e chorei.
Olhando
naquele espaço consegui visualizar, eu correndo no quintal, pegando escondido
as ferramentas de meu vô, porque ele brigava mas depois fazia carinho, e seu
carinho era morder nossa cabeça, odiava aquilo quando criança, mas hoje eu até
sentaria para ele fazer. E chorei.
Vi minha
vó tirando o bolo de banana do forno, o melhor do mundo. Mas crianças não
querem esperar esfriar, me queimava na forma e chorava e assim chorei denovo
hoje.
Hoje eu
chorei lembrando dos tomates gigantes em sua geladeira que comia com sal, sem
sua permissão, porque casa de vó, se pode tudo.
Olhando na
mesma direção lembrei de seu jardim com plantas e uma roseira que dava rosas
mescladas de rosa e branco, e que eu picava para fazer comidinha para as
bonecas, e a gargalhada da minha vó ao dizer: deixa elas brincarem... E chorei.
Chorei com
a recordação de minha irmãs subindo a rua em frente para buscar pão e frios, o
que era regra nestes dias de alegria. Tão meninas, e tão admiradas por mim.
Chorei ao
recordar de escalar a estante de dona Leonor para pegar um vaso em formato de
pera que dentro tinha balas de morango (??) sim, hoje essa bala não tem o mesmo
sabor.
Chorei e
ainda choro, lembrando do seu colo imenso, o melhor colo do mundo, e chorei
perguntando à Deus porque os levou tão cedo.
Olhando
até agora vejo a rua inteira, que subíamos com meu vô na doceira garoto e ele
comprava balas, paçoca e amendoim com casca, que passávamos a tarde
comendo.
Chorei.
E ainda
choro ao recordar dele sentando fazendo seu cigarro de palha, enquanto minha vó
dava conselhos para minha mãe não dar muita ousadia para meu pai (rs) o
restante não posso escrever (rs).
Chorei ao
lembrar de um tempo mágico, onde estávamos todos juntos e , sim, felizes.
Porque a
cura para qualquer dor, era benzer com um pires de azeite e alho, e que olho
gordo e bucho virado tinham ido embora, graças a minha vó.
Chorei e
ainda choro, ao lembrar da procissão que seguia da igreja da matriz até o
clipper.
Chorei
porque o que mais precisava agora era que dona Leonor ou tia Leonilda me
benzesse e eu ficava bem. Corria e ia pintar a cara das bonecas novas.
Chorei e
ainda choro, porque o tempo é cruel, e nos tiram coisas que não queremos nunca
perder.
Chorei
porque queria ouvir meu vô com seus discos de moda de viola segurando um violão
sem saber tocar, o que não suportava quando criança.
Chorei e
ainda choro, porque a verdadeira saudade dói, mas também traz alegria de saber
que aconteceu, que foi real e que me fez feliz.
Chorei,
dei a última olhada de hoje para onde está a maior e mais feliz parte da minha
história, e abracei meu filho.
E assim
chorei, de gratidão.