sábado, 11 de agosto de 2018

Metade

Não existe metade de um beijo
Nem meio abraço
Nem metade feita nem meio desfeita.

Não existe meia vontade
Nem metade de saudade
Meia bobagem, cara metade
Não, não existe.

Não existe metade falada
Nem meias verdades 
Nada de de meio alegre
Nem de metade da verdade.

Não tem como metade estar triste
E a outra metade, onde está?
Não tem meia ação 
Assim como metade não há como amar.

Não somos metades
Somos inteiros
Assim como uma árvore que quando se parte, Tronco ela será
Inteiro tronco, não meia árvore.

Metade frio, metade calor
Metade riso, metade é a dor
Metade pai, metade avô
E no meio de tantos meios
Escolhi ser inteiro
Porque de metades estou cheio
E de inteiros só eu mesmo.

Metade, não 
Não existe.
E se é de metades que vive
Vives pela metade
E metade vivo, a outra metade onde está?

Meio morto?
Não, não existe metade.
Ou se é inteiro vivo
Ou se é inteiro morto.

Se é metade que me oferece
De nada me vale
Prefiro ser inteira dor
Do que receber meio amor.

Metade, não 
Não existe.
Não aceito
E com meu eu inteiro
Te rejeito.






quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Hoje eu Chorei


Hoje eu chorei
Chorei de lavar a alma
Com o coração apertado que parece não ter fim.
E continuo a chorar.

Hoje acordei e fui olhar para o dia
E pela sacada vi um céu azul, limpo, diferente dos dias que passaram, e chorei.

Olhei para a rua onde fui criada, e cresci, a casa já não existe mais, existe outra em seu lugar, e chorei.

Olhando naquele espaço consegui visualizar, eu correndo no quintal, pegando escondido as ferramentas de meu vô, porque ele brigava mas depois fazia carinho, e seu carinho era morder nossa cabeça, odiava aquilo quando criança, mas hoje eu até sentaria para ele fazer. E chorei.


Vi minha vó tirando o bolo de banana do forno, o melhor do mundo. Mas crianças não querem esperar esfriar, me queimava na forma e chorava e assim chorei denovo hoje.

Hoje eu chorei lembrando dos tomates gigantes em sua geladeira que comia com sal, sem sua permissão, porque casa de vó, se pode tudo.

Olhando na mesma direção lembrei de seu jardim com plantas e uma roseira que dava rosas mescladas de rosa e branco, e que eu picava para fazer comidinha para as bonecas, e a gargalhada da minha vó ao dizer: deixa elas brincarem... E chorei.

Chorei com a recordação de minha irmãs subindo a rua em frente para buscar pão e frios, o que era regra nestes dias de alegria. Tão meninas, e tão admiradas por mim.

Chorei ao recordar de escalar a estante de dona Leonor para pegar um vaso em formato de pera que dentro tinha balas de morango (??) sim, hoje essa bala não tem o mesmo sabor.

Chorei e ainda choro, lembrando do seu colo imenso, o melhor colo do mundo, e chorei perguntando à Deus porque os levou tão cedo.

Olhando até agora vejo a rua inteira, que subíamos com meu vô na doceira garoto e ele comprava balas, paçoca e amendoim  com casca, que passávamos a tarde comendo.

Chorei.

E ainda choro ao recordar dele sentando fazendo seu cigarro de palha, enquanto minha vó dava conselhos para minha mãe não dar muita ousadia para meu pai (rs) o restante não posso escrever (rs).

Chorei ao lembrar de um tempo mágico, onde estávamos todos juntos e , sim, felizes.

Porque a cura para qualquer dor, era benzer com um pires de azeite e alho, e que olho gordo e bucho virado tinham ido embora, graças a minha vó.

Chorei e ainda choro, ao lembrar da procissão que seguia da igreja da matriz até o clipper.

Chorei porque o que mais precisava agora era que dona Leonor ou tia Leonilda me benzesse e eu ficava bem. Corria e ia pintar a cara das bonecas novas.

Chorei e ainda choro, porque o tempo é cruel, e nos tiram coisas que não queremos nunca perder.

Chorei porque queria ouvir meu vô com seus discos de moda de viola segurando um violão sem saber tocar, o que não suportava quando criança.


Chorei e ainda choro, porque a verdadeira saudade dói, mas também traz alegria de saber que aconteceu, que foi real e que me fez feliz. 

Chorei, dei a última olhada de hoje para onde está a maior e mais feliz parte da minha história, e abracei meu filho.

E assim chorei, de gratidão.