quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Compulsão

Há quem tenha compulsão por comer.
Não pensa duas vezes ao se deliciar com uma refeição, seja ela qual for.
Há quem tenha compulsão por organizar.
Livros espalhados, coisas fora do lugar dão-lhe urticárias.
Há quem tenha compulsão por compras.
Não há um dia onde não faça existir a necessidade de consumir algo.
Toda compulsão tem como seu fator principal a ansiedade.
Ela que nos faz perder os limites algumas vezes.
Que nos rouba o sono em outras, e faz um medo inexplicável surgir em certas ocasiões.


Existe também a compulsão por sorrir.
De todas as compulsões, esta particularmente me encanta. Acho admirável quem não se permite passar um intervalo de horas sem esboçar um, singelo que seja,  sorriso.

Mas também existe a compulsão por apaixonar- se.
Esta, sem dúvida, merece eterna admiração.
Quem apaixona-se por um olhar, apaixona-se por um gesto, um filme, um cheiro, um jeito, um beijo... Apaixona-se  pelo fato de estar apaixonado.

Não nego que tenha uma certa afinidade nesta compulsão.
Lembro de uma vez, a um tempo atrás “ Uma adolescente dentro de um ônibus a caminho do trabalho, avista um rapaz que no mesmo instante faz seu estômago contorcer, e ali mesmo, numa fração de segundos, apaixonou-se.
Existiam seis poltronas disponíveis naquele veículo, mas ele “aleatoriamente”(será?) sentou-se ao lado dela. Ambos de óculos escuros, impossibilitando de saber se os olhares se encontraram alguma vez.
Foram vinte e seis  minutos, de silêncio, de nervosismo, de prazer e de uma euforia tão imensa porém contida... Exatos vinte e seis minutos de uma paixão tão intensa que por pouco podiam tocá-la.
Ao longo do trajeto ela pensava em inúmeras formas de fazê-lo  perceber sua presença e interesse, era lindo... parecia um anjo, porém provocava sensações que apenas os demônios conhecem...
Chegou a hora do rapaz saltar, e a sensação de desespero e arrependimento tomava conta da garota.
Ele apressadamente levantou-se e desceu, no momento em que o semáforo estava vermelho.
Ela sentia que não podia acabar assim, aquela paixão não podia ser tão platônica, olhando pela janela tirou os óculos escuros e apenas sorriu.. O rapaz surpreso devolveu o sorriso com os braços abertos, como quem faz um convite a dançar juntos e consumar o sentimento reprimido daqueles vinte e seis minutos de silêncio.
O semáforo ficou verde, e o ônibus partiu.
Ela seguiu...longos dias sonhando com o dia que o encontraria novamente e quem sabe consumar aquela paixão, o que jamais aconteceu.”
Não vejo outro final para essa história, ela tinha que seguir com essa dúvida, assim como ele.
Isso que tornou essa paixão tão inesquecível, nunca ter sido consumada, bebida, tocada.
E não foi a primeira nem a última vez que a paixão aconteceu.
O interessante e ao mesmo tempo triste, é que na mesma velocidade e intensidade  que a paixão surge, ela se dissipa. Como por mágica, ela desaparece dando espaço para a próxima, e assim sucessivamente...


Existe também a compulsão por fazer apaixonar.
Esta é uma arte, digna de aplausos e assovios, onde muitos tentam porém poucos conseguem, e geralmente quem possui esta compulsão não sabe disso.
Faz apaixonar sem truques, sem pretensões, porém com uma necessidade insaciável de seduzir o outro, mas como tudo é ambíguo, após fazer alguém apaixonar-se, alcançando o objetivo,  este compulsivo se entristece, mas logo parte para outro desafio.
Este compulsivo me atrai e ao mesmo tempo me intriga.
Penso que essa necessidade compulsória  de testar suas aptidões para a sedução esconde na verdade um coração frágil que, por um momento,  suplica por aceitação.
Esta é a forma de manter o ego inflado, onde as conquistas servem de combustível para manter o ego nas nuvens.
É inacreditável quem não se perceba compulsivo por algo.
É incrível quem consegue ter muitas paixões.
É enlouquecedor quem possui um armário cheio de sapatos, com alguns nunca usados.
É admirável quem possui uma estante cheia de livros organizados, um por um...
É tentador o prazer perceptível de alguém se deliciando com uma barra de chocolate.
É sensacional quem faz alguém se apaixonar, mas o mais espetacular é o que consegue manter alguém apaixonado.

Mas...Quem nunca apaixonou-se ou fez-se apaixonar....?

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