segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

Barro

 Como acreditar em amor sem nunca ter sido amado?

Como saber aceitar carinho, se nunca foi acarinhado?

Como acreditar em outrem, se todos em que você confiou, te traiçonaram?

Como seguir adiante se no presente vive o passado?


Como ter fé na cura, se nem ao menos foi diagnosticado?

Como buscar ser feliz, se nestas tentativas tudo que conseguiu foi colecionar cicatriz?


Como crer que você merece mais, sendo que o máximo que já teve sempre foi o pouco?

Como admirar o sol e o céu azul se a vida sempre te joga em um poço?


O que fazer quando você se sente respirando, mas sua mente te suga para que continue se afogando?

E enquanto isso o tempo não pára e as horas seguem passando...


O problema quando se recebe pouco amor é justamente não saber como ele é.

Então é muito fácil ser enganado e de ver coisas onde não existem.

Mas, no fundo, mentimos para nós mesmos o tempo todo.

Talvez seja mais fácil ou menos difícil assim...


Contradizerme faz parte do que sou.

Sinto latente a ilusão do (des)amor que somente me quebrou.


Pois, tudo o que um día tive de belo me foi roubado.

E hoje só respiro porque aprendi a viver sendo esmagado.

Hoje sou uma consciência, colando com barro os meus próprios cacos.

Alguns é melhor deixar de fora, mesmo que aparente faltar um pedaço.


A minha única verdade agora é que nunca houve ninguém apaixonado.

E se houve, me perdoem com minha admiração, oh! Bem amados.


Seguirei aqui tentando reunir o que sobrou de mim.

Porque a verdade é que não sei fazer outra coisa a não ser não olhar para o fim.


Quem sabe um dia eu consiga escrever um belo poema.

Que, por fim, essa dor me deixe e eu aborde um novo tema.


E aqui me despeço, mas creio que só por enquanto,

Pois acabou o barro, e preciso buscar em outro canto...

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