Eu sei que sumi.
Desapareci.
Mas eu também me perdi de mim.
Era impossível me encontrar, saber o que gosto de ouvir, falar...
Me perdi de mim
Tentando encontrar algum gosto, gesto, esboço.
Está difícil me enxergar
Saber se aceito, se nego ou me desfaço
Como um três de espadas perdido em meio ao baralho
Não tem sido possível me auto encarar
Estes dias, meses e anos nem me dei conta se o vi passar
Perdida em momentos, em projeções sem nada a esperar.
Rezando para que sorte, por pelo menos uma vez, venha me encontrar.
Um barco sem velas, sem remo
Em mar aberto apenas no devaneio
Deixando o presente e o destino por escolha do vento.
Perdida me encontro
Todos os (des)encontros que perdida permanecia.
Afagos afetos sonhos poesia
Perdido está dentro de mim
Desaparecido está o que me faz sorrir.
E sim, eu sumi.
Desapareci até do reflexo do espelho
O que me excitava hoje causa desespero
Não sei quem era, o que sou nem se serei novamente
Aquela alma leve, dançante e sorridente
Não sei onde me encontrar
Não imagino onde eu possa estar
Perdida eu me encontro
Querendo por alguns momentos ser outro
Ser um pássaro ou talvez apenas uma brisa vespertina
Sei que posso talvez estar presa em algum tipo de rotina
O que me consola é o silêncio da minha presença.
E o fato de que para poucos eu ainda esteja
Aqui, ali e acolá
Onde mesmo eu deveria estar?
Certamente em algum tipo de recordação irrelevante
Nada que tenha sido indispensável nem ao menos um instante.
Eu sumi.
Desapareci
De todos
Da vida
E de mim.


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