Existem coisas que não fazem sentido algum.
Entre elas, a dificuldade de concordar, aceitar, ou
simplesmente dizer sim.
Já me peguei em algumas situações assim.
Lá atrás, onde não
existia maturidade alguma.
Onde existia apenas uma timidez extraordinária, junto com a insegurança
de quem já sofreu algum tipo de bullying.
Certa vez, na Escola, havia um rapazinho.
Uma graça.
Descolado, desinibido, sabia tocar violão... Um charme.
Todas as menininhas sonhavam “ficar” com ele.
Na minha época o tal “ ficar” era ir atrás do palco do pátio
e dar uns beijinhos.
Ele passava e arrancava suspiros, das mais populares até da
mais nerd garota espinhenta desiludida com o amor rejeitado pelo metaleiro que
não gostava de banho do 2° ano.
Acostumada a ser chacota, a possibilidade de aquela maravilha de cabelo espetado do 3° ano
do colegial olhar para mim, era nula.
Nem tanto, não percebi que a Mônica do Maurício de Souza tinha
ficado pra trás, e que era sim, uma adolescente até que, bonitinha.
Quando não há pretensões é quando somos surpreendidos.
Uma excursão, para um parque de diversões.
Aquelas meninas bonitas, legais, com o cabelo dourado, os
rapazes mais interessantes, a galera excluída jogava RPG... Todos no mesmo
ônibus.
Na fila de uma montanha russa, fui elogiada.
“Você está muito bonita, Aline”
(Ele sabia meu nome????)
Não tive o que responder, pois não tinha certeza se realmente ele tinha dito aquilo, era tão
improvável...
Andei apressadamente, coloquei a trava de segurança do
carrinho sem olhar para o lado, rezando para que fosse somente uma alucinação.
Costumava pensar que a vida é mais fácil quando não somos notados.
De certa forma, isso ainda faz algum sentido pra mim.
Na saída da Montanha Russa, ele veio falar comigo.
Pra mim, era interesse na minha amiga, o que eu já estava
acostumada desde sempre.
Até que, na entrada do Cinema, ele me abraça e eu vejo
aquele beicinho lindo vindo em minha direção... Ai!! Ele está vindo me
beijar...
“Nããããããoooooo!!!!! “
Disparei me soltando dos braços dele.
Ao mesmo tempo desaprovei meu comportamento. Ouvia
claramente minha consciência: “Você é uma tonta, todas queriam estar aqui, no
seu lugar, você também quer!! Por que você fez isso???”
Medo.
É mais fácil o não do que o sim.
O Não é mais seguro.
Estamos acostumados com ele.
É uma garantia.
O Sim, é incerto.
Algumas outras vezes depois fui obrigada a trocar as respostas.
Aceitar o que não me agradava.
A negar o que queria.
Utilizar o Não, e pensar nele como um mantra.
É arriscado demais... Melhor Não!
Será que é isso mesmo? Ahh deixa pra lá, melhor Não!
O telefone toca.
“Oi, tudo bem? Vamos fazer algo hoje?”
(Pausa)
“Ahhh... Então...Não dá! Já marquei de ir com uma amiga no
chá de cozinha da sobrinha da avó dela.”
Somos ensinados a coisa mais patética que existe:
Fazer-se de difícil
Fazer jogos
Tudo para testar o interesse do outro.
Essa equação nunca deu certo.
O telefone não mais tocou...
O telefone vibra, uma mensagem.
“Quanto tempo!!! Vamos tomar uma?? Quero tanto te ver!”
Lá está vindo.. o Não... É quase que uma resposta
automática.
Mas porquê?
Se quer ir, vá!
Se quer falar, fale!
Porque é tão difícil assumir o que se quer?
Qual o prazer em martirizar-se com possibilidades?
Qual a razão para andarmos tão desconfiados, e tão conformados
com tudo, principalmente com o Não.
“Também quero te ver! Vamos! Quando??”
E a resposta não vem.
É só responder quando, penso.
Aquela sensação de quem falou demais, mesmo não falando
quase nada, invade meu corpo.
Passam-se dias...
Agora eu lembrei o motivo de sempre dizer Não.
Devia tê-lo usado.
Porque existem pessoas que não aceitam o Sim.
Acostumaram-se com a rejeição.
O Sim apavora, intimida e faz reagir.
Faz acontecer.
Quebra a rotina.
Testa possibilidades.
Cria vivências e experiências.
E agora?



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