Casa típica construída por eles próprios na década de 40.
Aquela casa, hoje não existe, mas ainda está lá seu lugar, em minha memória eu a vejo, junto com toda a família, risadas, pão de frios, bolo de banana e chão de caquinhos...
Também em nossa casa, a área do piso superior eram de cacos, mas meu pai foi mais ousado, além dos cacos de cerâmica, tinham vidrilhos coloridos formando desenhos abstratos ao qual ficava muito tempo tentando ver, formar, imaginar desenhos, o que faço com as nuvens até hoje, visto que este(s) chão(s) não existe mais.
Entre as décadas de 40 e 50, no ABC Paulista, mais precisamente em São Caetano do Sul, existiram duas grandes fábricas de pisos de cerâmica.
Seus consumidores, em sua grande parte de classe alta e média buscavam as placas para pavimentar seus pátios, a classe mais baixa pavimentava com o famoso "cimento queimado" utilizando cera vermelha (famoso vermelhão) ou verde, eram os mais comuns, isso deixava o piso mais liso e brilhante, ficando claro que também existia zelo dos trabalhadores por suas casas.
Certo dia, um funcionário de uma destas fábricas, solicitou as peças quebradas, já que estavam por completas danificadas e o lixo seria seu destino final.
Logo sua criatividade se espalhou para os demais funcionários para que pudesse, de alguma maneira, por fim, ter piso em suas residências, dando assim origem ao "famoso chão de caquinhos", o que logo transformou-se em uma alta moda Paulistana que se estendeu à outras Cidades e Estados.
As fábricas chegavam a quebrar peças inteiras (sua grande parte media 20X20 cm) para atender o aumento das vendas e aproveitar a procura dos famosos "cacos".
Assim é conosco.
Mas, o que esta analogia tem a ver?
Fiz a introdução ao tema, mas meu foco sempre é falar de sentimentos e vivências, não de História.
Em nossa vida, e creio que até o momento de partirmos, damos tropeços por aí e lá se vai uma lasca, um tombo aqui, outro acolá e se perdem uns pedaços...
Há momentos em que até somos uma peça inteira de cerâmica numa fábrica e somos totalmente fragmentados. E, quando isso ocorre é impossível juntar todas as partes, umas lascas voam, outras viram pó.
E qual é a ideia do chão de caquinhos?
Juntar todas as suas partes para conseguir unir a peça inteira formando por completo a placa?
NÃO!
É buscar dentre os cacos os mais inteiros, os mais bonitos, os que se entrelaçam e seja harmônico. Aqueles possíveis de colocar sobre a argamassa e obter resultados diferentes, lindos, artísticos e o principal, ÚNICOS.
Por vezes, em nossa caminhada estamos na forma de cacos e é necessário juntar, misturar com outros, veja meu pai, até vidrilhos colocou.
Deixar que alguns se percam é bom, mas o bom mesmo são aqueles que viram poeira, mas claro sem perder sua essência (no caso dos cacos, a cerâmica. No nosso, o caráter).
Nos tornando assim remodelados, reconstruídos e autênticos e nunca esquecer que, o que um dia era considerado extremamente descartável, nos anos 50 custavam muito, muito caro e hoje... Ahhh, hoje... É uma relíquia preciosa, ao qual por mais que tentem refazer, jamais será o que foi e o que ainda é.
Aquelas montagens foram únicas, só quem teve o prazer de viver com elas sabem o que significaram. Assim é conosco.
E quando a obra finalmente estiver feita, assim como ocorreu no século passado, faltará oferta de cacos e de quem artisticamente, "malabaristicamente" soube o que fazer com eles, sendo possível assim revelar sua forma única de reconstrução e seu verdadeiro valor.


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